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O RSD começa na proposta, não no telhado

Em projetos sobre edificações, escolher entre inversor string, otimizadores ou microinversores virou também escolher como o sistema faz o desligamento rápido — e isso precisa acontecer antes de o preço chegar ao cliente.


A nova realidade de segurança contra incêndio mudou uma etapa que muita integradora ainda trata como detalhe de instalação. Em projetos sobre edificações, decidir entre inversor string, otimizadores ou microinversores agora também é decidir como o sistema fará o desligamento rápido — e essa decisão precisa acontecer antes do preço chegar ao cliente.

Imagine uma venda comum.

O cliente aprovou uma usina de 50 kWp para o telhado da empresa. O comercial cotou módulos, inversor string, estrutura, proteções e instalação. A margem está fechada, o contrato assinado e os equipamentos praticamente comprados.

Então o projeto chega à etapa de execução.

Alguém faz a pergunta que deveria ter sido feita antes:

E o desligamento rápido?

É nesse momento que aparecem dispositivos adicionais no telhado, compatibilidade com o inversor, AFPE, GFCI, sinalização, local da chave de emergência e horas extras de instalação.

O projeto continua tecnicamente possível. O problema é outro: ninguém colocou esse custo na proposta.

Esse é provavelmente o principal efeito da ABNT NBR 17193:2025 e, no Rio Grande do Norte, da Resolução Técnica nº 04/2025 do Corpo de Bombeiros para quem vende sistemas fotovoltaicos novos.

O RSD deixou de ser algo para conferir no fim da instalação. Ele começa na definição da arquitetura.

Primeiro entenda o problema que o RSD resolve

Um inversor string pode ser desligado e parar de entregar energia para a rede. Mas isso não significa que toda a parte em corrente contínua sobre o telhado ficou sem tensão.

Enquanto houver sol, os módulos continuam produzindo.

Em uma string com vários módulos ligados em série, isso pode significar centenas de volts ainda presentes nos cabos. Para quem está fazendo manutenção ou para uma equipe de emergência em um incêndio, é justamente aí que está o risco.

A Função de Desligamento Rápido — FDR, ou RSD na sigla em inglês — existe para mudar esse cenário.

A NBR 17193 estabelece que os circuitos abrangidos pela função precisam atingir os níveis de tensão definidos pela norma em até 30 segundos após o acionamento. Dentro do limite do arranjo fotovoltaico, a referência é de no máximo 120 Vcc; fora dele, aplica-se o limite de tensão DVC-A previsto pela própria norma.

Para o integrador, porém, a informação mais importante não é decorar esses números.

É saber qual arquitetura que está sendo vendida consegue efetivamente fazer isso — e como ela faz.

No RN, pense primeiro: meu sistema é Tipo 1 ou Tipo 2?

A Resolução Técnica nº 04/2025 do CBMRN trouxe uma divisão bastante prática.

O Sistema Tipo 1 é aquele em que permanece tensão acima da tensão de segurança na fiação quando o sistema deixa de funcionar. A própria resolução cita como situação típica o inversor string sem otimizadores.

Para esse caso, o CBMRN prevê AFPE, GFCI e RSD.

Já o Sistema Tipo 2 é aquele em que essa tensão elevada não permanece na fiação. A resolução cita como exemplos os microinversores e os inversores string associados a otimizadores capazes de reduzir a tensão a níveis seguros. Para esses sistemas, o quadro da norma estadual prevê o disjuntor de desligamento.

Essa diferença muda completamente a forma de orçar.

Mas existe um cuidado importante: não classifique o sistema apenas pelo nome do equipamento.

"Tem otimizador" não é sinônimo automático de conformidade. "É microinversor" também não deve encerrar a análise.

O que interessa é o comportamento elétrico do conjunto e a documentação do fabricante demonstrando como aquela solução atende à função de desligamento rápido.

O inversor string não deixou de ser opção

Existe um risco de transformar a nova norma em uma discussão simplista: "agora tem que usar microinversor".

Não é isso.

O inversor string continua sendo perfeitamente possível em novos projetos. O que mudou é que uma arquitetura com tensão CC elevada sobre a edificação precisa ser projetada com as proteções correspondentes.

No RN, se o sistema se enquadrar como Tipo 1, a própria Resolução Técnica 04/2025 determina RSD junto aos módulos, além de AFPE e GFCI.

Isso significa que, ao comparar uma solução string com uma solução de microinversores ou string com otimizadores, o integrador não deveria mais comparar apenas preço do inversor versus preço do microinversor.

A comparação correta passa a considerar o sistema completo instalado e em conformidade.

Um inversor string que parece mais barato na primeira cotação pode precisar de RSD por módulo ou por grupo de módulos, transmissor ou controlador, proteções adicionais e mais mão de obra no telhado.

Isso não torna a solução ruim. Só significa que o orçamento precisa ser feito direito.

O maior erro é comprar o RSD depois de escolher o inversor

A sequência deveria ser exatamente o contrário.

Primeiro você define a arquitetura que pretende utilizar. Depois verifica qual solução de desligamento rápido é reconhecida ou indicada pelo fabricante para aquele equipamento. Só então fecha a lista de materiais.

Misturar inversor de um fabricante com um RSD de terceiro simplesmente porque os conectores encaixam é uma decisão arriscada. O dispositivo precisa atuar no tempo esperado, reduzir efetivamente a tensão e trabalhar corretamente durante toda a vida útil do sistema.

Além disso, resolver a exigência normativa criando uma combinação que o fabricante do inversor não reconhece pode trazer um segundo problema: garantia.

Por isso, antes de incluir um RSD na proposta, procure documentação técnica que demonstre a compatibilidade da solução e a forma de acionamento.

E a chave de desligamento? Ela também precisa entrar na vistoria

Outro erro fácil de cometer é pensar apenas no dispositivo instalado atrás dos módulos. Existe também o acionamento.

No Rio Grande do Norte, para os sistemas Tipo 1, a Resolução Técnica determina que a chave de desligamento rápido fique em local seguro, acessível e de fácil visualização.

Preferencialmente deve estar em local com vigilância humana constante. Quando isso não existe, a norma estadual permite sua instalação a até 3 metros do inversor string. Ela também deve poder ser operada sem escada ou ferramenta e possuir sinalização própria.

Isso muda inclusive a visita técnica.

Não basta mais voltar do cliente sabendo que "cabem 80 módulos".

O projetista precisa olhar também onde estará o inversor, por onde passarão os circuitos, onde poderá ficar o desligamento de emergência e como uma pessoa que nunca viu aquela instalação identificaria o sistema durante uma ocorrência.

É projeto de segurança, não apenas projeto de geração.

O RSD também não anda sozinho

Se o projeto está sendo revisado apenas para acrescentar um dispositivo de desligamento rápido na lista de materiais, provavelmente a revisão está incompleta.

A regulamentação do CBMRN também trata da localização dos inversores string, sinalização, extintores, afastamentos, SPDA, documentação e comissionamento.

Para sistemas em telhados ou coberturas, a resolução ainda prevê laudo estrutural acompanhado do respectivo documento de responsabilidade técnica. Na vistoria, prevê também a apresentação do comissionamento conforme a NBR 16274.

Ou seja: a NBR 17193 e a regulamentação do Corpo de Bombeiros não criaram apenas mais um equipamento para comprar. Elas mudaram parte do processo de projeto.

Antes de mandar a proposta, confira isto

Para novos projetos sobre edificações, vale criar um gate interno antes de liberar o orçamento ao comercial:

  • definir se a arquitetura escolhida se comporta como Sistema Tipo 1 ou Tipo 2
  • verificar como aquela solução atende à função de desligamento rápido
  • confirmar documentalmente a compatibilidade entre inversor, otimizador ou RSD
  • incluir AFPE e GFCI quando exigidos para a arquitetura adotada
  • definir ainda na vistoria a localização do inversor e do acionamento do desligamento
  • prever sinalização, proteções e demais exigências aplicáveis do Corpo de Bombeiros
  • considerar no preço instalação, comissionamento e documentação — não apenas o equipamento

Esse pequeno checklist pode evitar um problema grande depois da assinatura.

Um detalhe importante para projetos residenciais no RN

A própria Resolução Técnica nº 04/2025 do CBMRN faz uma ressalva: para arranjos fotovoltaicos instalados em edificações exclusivamente unifamiliares, a norma estadual é apresentada como recomendatória.

Isso não é uma boa razão para simplesmente retirar o tema do projeto residencial.

A NBR 17193 continua sendo a referência técnica brasileira específica para segurança contra incêndios em instalações fotovoltaicas em edificações, e fabricantes já vêm adequando e documentando suas soluções em função dela.

Para o integrador, padronizar projetos novos já considerando essas exigências tende a ser mais seguro do que manter dois padrões de engenharia completamente diferentes.

Quem descobrir o RSD na obra já descobriu tarde

A principal mudança para o integrador não acontece no telhado. Acontece antes da venda.

Quando a equipe comercial calcula preço sem saber qual arquitetura de segurança será utilizada, qualquer exigência descoberta depois vira custo não previsto, retrabalho ou discussão com o cliente.

Quando engenharia e comercial definem isso antes, o RSD deixa de ser surpresa. Ele simplesmente passa a fazer parte do sistema.

E provavelmente essa será uma das diferenças cada vez mais claras entre vender apenas equipamentos fotovoltaicos e entregar efetivamente um projeto de engenharia.

Fontes

  • ABNT NBR 17193:2025 — Segurança contra incêndios em instalações fotovoltaicas — Requisitos e especificações de projetos — Uso em edificações
  • Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Norte — Resolução Técnica nº 04/2025 – DAT/CBMRN — Segurança contra incêndio em sistemas fotovoltaicos
  • CBMRN, Portal de Publicações Técnicas — versão oficial da Resolução Técnica nº 04/2025 atualmente disponibilizada pela corporação
  • SolarEdge — material técnico sobre aplicação da NBR 17193 e função de desligamento rápido
  • Enphase — resumo técnico sobre a Função de Desligamento Rápido em sistemas de microinversores e atendimento à ABNT NBR 17193
  • Sebrae RN, Polo de Energias Renováveis — conteúdo técnico sobre os impactos da NBR 17193 nos novos projetos fotovoltaicos

Erik Guilherme

CEO da Erlis Tecnologia

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